fev 16

  Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoas que você conhece: às que querem agradar a todo o preço. Então tornam-se “encantadoras”. Procuram adivinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada. 

  Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficarem à vontade. 


*Publicado originalmente no Diário da Noite (publicado na seção Nossa Conversa), por Ilka Soares, no dia 18 de outubro de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*

jan 5

Desde remoto antiguidade, os olhos vêm servindo de tema para poemas, ensaios, provérbios, lendas etc. Os de Cleópatra (que os maquiava muito à maneira das modernas elegantes) eram tão célebres quanto o seu nariz e devem ter desempenhado também papel importante na mudança dos destinos da humanidade.  

A moda atual – insensata sob tantos aspectos – pelo menos com relação aos olhos, demonstra haver compreendida a importância deles para fazer sobressair a beleza do rosto. Com efeito, nunca houve tanto requinte na maquilagem dos olhos como agora. O seu formato é sublinhado e alongado por traços de lápis; o rímel, que até bem pouco tempo se limitava ao preto e ao marrom, hoje, pode ser encontrado nos mais variados matizes de verde, azul, violeta ou cinza; e um mostruário de “sombra” para as pálpebras faz lembrar uma paleta de pintou abstracionista.  

 

Mas não é só. Recentemente, em Paris, foram lançadas “sombras” de ouro e prata para a noite. E Josephine Baker, a famosa cançonetista e dançarina café ou lait, inaugurou a moda de colocar sobre cada pálpebra uma pequenina pedra preciosa. Desta forma, qualquer uma que queira dar-se a esse trabalho (quase de ouvires), poderá exibir um olhar cintilante.  

Quanto aos cílios postiços, outrora só usado por atrizes no palco ou na tela, o seu uso está espalhando-se cada vez mais, até para as horas do dia.  

Para os olhos serem belos, não basta, porém, que sejam grandes, de um colorido especial ou maquilados com requinte. É preciso que neles haja algo mais. Pois, sendo “os espelhosda alma”, devem refletir doçura, compreensão, inteligência.   

Em resumo, mais importante do que os olhos é – o olhar.  

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Helem Palmer, no dia 02 de junho de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*

  

dez 22

  A vitamina P é beneficiadora das veias e artérias, evita derrame e pressão alta. As boas fontes de vitamina P são os pimentões verdes, as frutas cítricas, principalmente casca de limão e de laranja.

  Para a preparação do extrato dessa vitamina, corte em fatias 3 limões com casca, 1 laranja com casca – e mergulhe-os em 1 litro de água. Deixe ferver por 10 minutos. Acrescente 2 colheres (de sopa) de mel, deixando no fogo para ferver mais 5 minutos. Escorra, e deixe esfriar. Tome 3 copos por dia.

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 24 de janeira de 1961. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*
dez 1

Pode-se dar amor natural, comum. Pode-se ter pena da pessoa ou ser fisicamente atraída por ela, e enganar-se pensando que essa reação é amor. Mas para que o amor real exista é preciso que você admire alguma coisa nele ou nela. Theodore Reik acha que o “amor só é possível quando você atribui um valor mais alto à pessoa do que a você, quando você vê nela ou nele uma personalidade que, pelo menos em algum sentido, é superior à sua.”

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 18 de janeirode 1961. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*
nov 10

O ar e a água são os alimentos mais essenciais ao nosso organismo. Pode-se viver 30 dias ou até mais, sem nenhum alimento sólido; mas morre-se em poucos minutos de falta de ar e em poucos dias de falta de água.

Os líquidos orgânicos tem um mínimo de 90% de água e até os ossos, cujo tecido é o mais duro do organismo, contém 40% de água. Assim, como os tecidos do nosso corpo são constituídos de água, podemos dizer que nossa vida depende do equilíbrio líquido do corpo.

A capacidade que temos de fabricar água constitui um curioso fato fisiológico. Como exemplo, pode-se citar o camelo, cuja giba é composta, principalmente, de gordura. Essa giba, a Natureza não a colocou no lombo para enfeite ou para fornecer um celim natural aos que o montam. Composta em grande parte de gordura, ela serve como depósito de água para esse animal que vive no deserto. Cem quilos de giba do camelo lhe proporcionam mais de cem de água, pode-se pois dizer que o camelo faz sua reserva de água em forma de gordura.

O mesmo se dá no corpo humano. Se uma pessoa ficar um certo tempo sem comer nem beber, parte de seus tecidos se transformam em água, pois esse a obtêm, não só dos líquidos, como também dos alimentos ingeridos. Dez litros de gordura produzem, ao destruir-se, cerca de dez litros de água. Isso porque o hidrogênio da gordura toma oxigênio do sangue para formar água. E para as bebidas alcoólicas a proporção é ainda maior: de dez litros de álcool, o organismo obtém onze de água. Por isso os que bebem muito ficam gordos e balofos.

Um fonômeno interessante é que, quando se acumula gordura no organismo, o armazenamento de água que resulta é muito pequeno. Assim, quando uma pessoa come quantidade considerável de alimentos gordurosos, perde parte da água acumulada dos tecidos (desidrata-se), de maneira que, se basearmos pelo que a balança marca parece ter perdido peso. Mas, naturalmente, existe um abismo de diferença entre a perda de peso por desidratação e de peso por destruição de gordura.

 *Publicado originalmente no Correio da Manhã , por Helen Palmer, no dia 30 de novembro de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*
out 20

  Em casa mesmo você poderá fabricar seus cremes de beleza, como uma feiticeira moderna que faz sozinha seu elixir de longa juventude.

  Feiticeira quase sempre trabalha com fogo. Você também, tanto que a cozinha será o quartel-general. Também porque lá se encontra o liquidificador – outro instrumento da feiticeira moderna.

  É no fogo, por exemplo, que você preparará um xampu especial para cabelos gordurosos. Receita fácil: derreta 10cm de sabão de coco (em barra) em 1/2 litro de água morna, acrescente 100g de glicerina líquida. Deixe esfriar – e então adicione o suco de 1 limão.

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 16 de agosto de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*
set 29

A vida não é cinema – e é muito difícil “usar” e excentricidade. A excentricidade é um desejo desesperado de agradar. O instinto das mulheres lhes informa “até onde podem ir” no desejo de agradar. Você já reparou o esforço enorme que a excentricidade exige de uma mulher? Quase um esforço físico de manter algo antinatural. No fim de algumas horas, vê-se no rosto da excêntrica o seu enorme cansaço, a sua vontade de voltar para casa…  

O que é escentricidade? De um modo geral, o exagero. Homens gostam de perfume? A excêntrica banha-se em perfumes… Decote é bonito? Ela então se desnuda. Entrar com segurança numa sala é elegante? então vamos fazer uma entrada teatral. A naturalidade é agradável? então vamos “fingir” naturalidade confundindo-a com vulgaridade. Homens gostam de “companherismo”? então vamos beber como um homem, dizer palavrões e mostrar que estamos acima dessa coisa ridícula que é mulher educada. A excentricidade é um esforço que termina em tristeza.  

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 21 de dezembro de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*

 

set 12

  Perde-se nos tempos a origem do uso das saias, que foi, inicialmente, e durante muitos séculos, vestimenta masculina. Mas as mulheres, por motivos não explicados, adotaram-na como sua. Devido a isso, os homens foram abolindo o seu uso, restando alguns povos orientais, como os beduínos e os mandarins, certas castas da Índia e do Japão, que continuaram adotando-as. Também os escoceses e certos regimentos do exército grego. O problema agora é que as mulheres modernas resolveram adotar também o uso das calças. Como vai ser então? O que é que fica para os homens usarem afinal?


*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Helen Palmer, no dia 11 de novembro de 19659. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*

ago 28

 Nenhuma flor pode ter a corola bonita de a haste que a sustenta for feia. E cabeça nenhuma será atraente se o pescoço que a sustenta como pedestal for desagradável aos olhos.

  O principal, para a beleza do pescoço, é seu aspecto liso, a cor unifrme, o contorno firme, a pele brilhante.

  Um mês de tratamento – com duchas filiformes, correntes elétricas, ginástica especial, alta freqüência dirigida, ionização – rejuvenesce um pescoço envelhecido.

  O que você pode fazer em casa e sozinha: para a volta da tonicidade dos músculos, o uso de uma escova macia, “trabalhando” em movimentos circulares, na hora do banho. Massagens: de baixo para cima, com palmadinhas dadas com as palmas das mãos.

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 24 de janeiro de 1961. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*
ago 3

Quando você era criança nunca leu a história de uma princesa linda, linda, mas – por maldição de fada ruim – que não abria a boca sem que desta lhe saíssem sapos, lagartos e ratinhos?

 

Pois o modo moderno de saírem “cobras e lagartos” da boca linda de uma jovem é o de dizer muita bobagem com os lábios perfeitamente maquiados. Só que isso não acontece por maldição de fada ruim, e sim por ignorância, por falta de instrução. Uma dessas “princesas” modernas, ouvindo uma conversa sobre Hemingway, perguntou: “Qual é o último filme em que ele trabalhou?”

Ler é um hábito que todo mundo devia ter. Não se quer dizer com isso que todos leiam “coisas difíceis”. Mesmo uma revista bem informada – e bem lida – pode ser uma fonte de culturazinha que pelo menos evita “cobras e lagartos”.

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, no dia 07 de fevereiro de 1961. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*

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