O ar e a água são os alimentos mais essenciais ao nosso organismo. Pode-se viver 30 dias ou até mais, sem nenhum alimento sólido; mas morre-se em poucos minutos de falta de ar e em poucos dias de falta de água.
Os líquidos orgânicos tem um mínimo de 90% de água e até os ossos, cujo tecido é o mais duro do organismo, contém 40% de água. Assim, como os tecidos do nosso corpo são constituídos de água, podemos dizer que nossa vida depende do equilíbrio líquido do corpo.
A capacidade que temos de fabricar água constitui um curioso fato fisiológico. Como exemplo, pode-se citar o camelo, cuja giba é composta, principalmente, de gordura. Essa giba, a Natureza não a colocou no lombo para enfeite ou para fornecer um celim natural aos que o montam. Composta em grande parte de gordura, ela serve como depósito de água para esse animal que vive no deserto. Cem quilos de giba do camelo lhe proporcionam mais de cem de água, pode-se pois dizer que o camelo faz sua reserva de água em forma de gordura.

O mesmo se dá no corpo humano. Se uma pessoa ficar um certo tempo sem comer nem beber, parte de seus tecidos se transformam em água, pois esse a obtêm, não só dos líquidos, como também dos alimentos ingeridos. Dez litros de gordura produzem, ao destruir-se, cerca de dez litros de água. Isso porque o hidrogênio da gordura toma oxigênio do sangue para formar água. E para as bebidas alcoólicas a proporção é ainda maior: de dez litros de álcool, o organismo obtém onze de água. Por isso os que bebem muito ficam gordos e balofos.
Um fonômeno interessante é que, quando se acumula gordura no organismo, o armazenamento de água que resulta é muito pequeno. Assim, quando uma pessoa come quantidade considerável de alimentos gordurosos, perde parte da água acumulada dos tecidos (desidrata-se), de maneira que, se basearmos pelo que a balança marca parece ter perdido peso. Mas, naturalmente, existe um abismo de diferença entre a perda de peso por desidratação e de peso por destruição de gordura.
*Publicado originalmente no Correio da Manhã , por Helen Palmer, no dia 30 de novembro de 1960. Encontrado no livro Só Para Mulheres, de Clarice Lispector*